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Combater a proliferação de um vírus com uma política de austeridade fiscal pode criar uma tragédia ainda maior nas áreas da saúde e da economia do que a disseminação do patógeno por si só, avalia o sociólogo Sérgio Abranches, em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP.
De acordo com ele, as autoridades brasileiras precisam entender que o que impacta a economia é a pandemia de coronavírus, e não o distanciamento social. Nesse sentido, Abranches cita um estudo de economistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Federal Reserve (FED) que indica que a recessão pela qual os Estados Unidos passaram na década de 1920 foi causada pela pandemia de gripe espanhola, e não pelas medidas sanitárias.
“Fazer isolamento social não causa uma recessão muito profunda. Quando a pandemia termina, se foram tomadas as medidas corretas no campo epidemiológico, a economia volta rapidamente”, alega o sociólogo.
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Com isso, ele reforça que a recomendação de distanciamento social como forma de conter o avanço do coronavírus na atualidade não impõe perdas severas à economia. “Se as pessoas começarem a morrer em maior quantidade no Brasil, a economia vai ficar muito mais profundamente ressentida com esse trauma. E nós vamos ter uma crise muito mais grave no fim da pandemia dos pontos de vista institucional, político e social”, assevera.
Segundo Abranches, as medidas para atenuar o impacto do vírus exigem uma mudança de política econômica do governo federal, que “estava totalmente centrado numa agenda ultraliberal, na qual gasto público era uma questão despropositada”.
O sociólogo, contudo, alerta que não se trata da maneira mais propícia de conduzir a economia na atual conjuntura. “Hoje, todo mundo sabe que, se tiver mais uma pandemia num programa de austeridade que faça com que o sistema de saúde e a própria economia não sejam capazes de responder de forma adequada, provavelmente vamos ter tragédias maiores do que esta, que ainda não acabou”, frisa.
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Abranches também destaca que a divergência no combate ao vírus por parte dos governos federal e estaduais tende a ampliar as perdas à sociedade brasileira. “Mais grave é a manifestação da pandemia quanto pior for a governança”, pontua.