Flávio supera Lula nas urnas: o que pode explicar o resultado acima das pesquisas

Migração de indecisos e de eleitores da direita ajuda a explicar diferença em relação aos levantamentos

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O senador Flávio Bolsonaro (PL) chega ao segundo turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) depois de um primeiro turno que se afastou do cenário indicado pela maioria das pesquisas na reta final.

Com a apuração avançada neste domingo (4), Flávio tinha cerca de 48,5% dos votos válidos, contra 43,5% de Lula. O resultado confirmou os dois candidatos na etapa decisiva, marcada para 25 de outubro, mas inverteu a ordem registrada pela maior parte dos institutos antes da abertura das urnas.

Datafolha, Quaest e AtlasIntel chegaram à véspera da eleição com Lula numericamente à frente. Na AtlasIntel/Bloomberg, por exemplo, o presidente tinha 47% dos votos válidos, contra 44,1% de Flávio.

A diferença nas urnas abre uma discussão sobre o comportamento dos eleitores que ainda admitiam mudar de candidato e sobre a concentração de votos da direita em Flávio nos últimos momentos da campanha.

Indecisos e voto útil

Para Bruno Soller, analista e sócio da Real Time Big Data, uma migração de eleitores indecisos para Flávio ajuda a explicar o resultado. Outro movimento, segundo ele, ocorreu entre eleitores que consideravam votar em Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).

A campanha do PL trabalhou na reta final para atrair esse eleitorado e concentrar o chamado voto útil em Flávio. Antes da votação, Soller já apontava que os eleitores de Zema e Caiado apresentavam maior inclinação a migrar para o senador em uma eventual disputa direta com Lula.

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O desempenho dos candidatos também mostra uma concentração maior do que as pesquisas captaram. Com a apuração avançada, Zema tinha menos de 1% dos votos válidos e Caiado pouco mais de 2%.

Na avaliação de Soller, parte desse movimento está relacionada à busca por mudança. Poder de compra, preço dos alimentos e segurança pública aparecem entre os temas que, segundo o analista, podem ter influenciado eleitores que chegaram à reta final sem uma escolha consolidada.

“Flávio conseguiu capitalizar um sentimento de mudança de um governo que prometeu muito e acabou entregando pouco. O custo de vida, a crise do STF e a sensação de insegurança pública fizeram com que o eleitor mesmo acabasse por superar alguma diferença com a escolha de Flávio Bolsonaro e depositasse o voto no candidato do PL”, afirma Soller.

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O analista também associa o resultado presidencial ao desempenho de nomes ligados ao bolsonarismo nas eleições legislativas. “Uma grande vitória do bolsonarismo, que além da vantagem de Flávio, conseguiu emplacar Carlos e Michelle para o Senado e Jair Renan para a Câmara Federal”, diz.

Agenda positiva não alcançou indecisos

Lula chegou à eleição tentando transformar medidas do governo e indicadores econômicos em argumentos para a continuidade. A estratégia também buscava reforçar programas de renda e ações com impacto direto sobre o orçamento das famílias.

O resultado indica, porém, que essa agenda não foi suficiente para levar ao presidente uma parcela dos eleitores que ainda estavam indecisos ou avaliavam outras candidaturas.

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Antes da votação, a própria Real Time Big Data identificava um ambiente de maior disposição por mudança do que por continuidade. Soller também apontava baixo engajamento e uma parcela do eleitorado que ainda poderia alterar o voto nos últimos dias.

Esse comportamento ajuda a explicar por que uma eleição que aparecia praticamente empatada, mas com Lula numericamente à frente na maioria dos levantamentos, terminou com Flávio abrindo vantagem no primeiro turno.

E o que diziam as pesquisas para o segundo turno?

As simulações feitas antes deste domingo mostravam uma disputa apertada, sem uma tendência uniforme entre os institutos.

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A última Real Time Big Data dava 46% para Flávio e 45% para Lula. A diferença estava dentro da margem de erro de dois pontos. Uma semana antes, o instituto registrava 45% a 44%, também para o candidato do PL.

A Quaest divulgada na véspera também colocava Flávio numericamente à frente: 44% a 42%. O resultado configurava empate técnico dentro da margem de erro.

A AtlasIntel, por sua vez, vinha registrando praticamente igualdade entre os dois. Em levantamento divulgado na última semana de setembro, Lula tinha 47,7% e Flávio, 47,4%.

Essas projeções foram feitas antes de os institutos conhecerem a distribuição efetiva dos votos do primeiro turno. Como o desempenho de Flávio ficou acima do indicado pela maioria dos levantamentos e Lula terminou atrás apesar da vantagem numérica prevista, as primeiras pesquisas realizadas depois da votação serão a referência mais atual para medir o ponto de partida do segundo turno.

A nova rodada também permitirá observar se a vantagem obtida por Flávio neste domingo se mantém após o início da campanha direta e como serão redistribuídos os votos dos candidatos eliminados. Lula, por sua vez, terá três semanas para buscar eleitores que não aderiram à agenda de continuidade no primeiro turno.

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Marina Verenicz
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